Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


08
Set14

A MEDICINA, O DOENTE E A FILOSOFIA...HUMANISMO

por mafaldinhacontestataria

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre leituras cruzadas, vontade de descobrir porquês sem resposta imediata, passo a passo acrescentamos às descobertas pequenos elos que se vão encadeando permitindo uma visão com mais nitidez do que é incompreensível à mente humana, nanopartícula que vai absorvendo o que vai explorando no seu universo. E o ser humano como partícula microscópica que é, vê o seu universo confinado a um microcosmos (muitos de nós gostariam provavelmente de viver inúmeras vidas numa só, vestir vários papéis, a máxima do «estou bem onde não estou», apesar de se viver intensamente o presente, parece saber sempre a pouco, há momentos que são assim, mas o nosso universo pessoal é tão insignificante )…

 

…Entre essas leituras cruzadas de que falava mas que perdi em divagações dispersas, encontrei uma ideia curiosa de Guillaume du Vair, alguém que viveu na Renascença, e que comparou os diferentes pontos de vista das pessoas, (que dissertam com resposta pronta sobre os mais variados assuntos conforme a opinião que vão formando após um longo percurso de vivências acumuladas, iniciado mal os olhos edemaciados se entreabrem para a luz do dia, na despedida do morno aconchego uterino), a viajantes que observam a Grande Pirâmide do Egipto: cada um capta dela a face que aborda, porque não a soube contornar, acreditando que o seu ângulo de visão é o único possível… E é assim que muito bem Jacqueline Lagrée, uma filósofa estabelece uma curiosa analogia, sendo os viajantes um médico, o doente e seus familiares, e um filósofo, e a pirâmide a doença.

O primeiro observa o corpo ao pormenor, processa sintomas utilizando um método sistemático de análise semiológico conforme a escola médica que o formou, e adequa os tratamentos à patologia diagnosticada. Os segundos, questionam-se sobre assuntos de sorte e azar, a natural revolta do porquê, foi tudo tão de repente, estava «são como um pero» e assim do nada… O terceiro, tenta encadear acontecimentos com base na condição humana, não para encontrar respostas ou terapêuticas mas para ajudar a compreender e a encaixar em alguma teoria do sentido da vida. No fundo, quem diz filósofo diz pensador.

 

Multiplicar as formas de olhar para um assunto, ajuda a ganhar distância sobre a nossa perspetiva pessoal, diz Jacqueline; e eu concordo: nós julgamos muitas vezes de forma intuitiva, através de um pensamento automático baseado na nossa conceção das coisas, ou seja, pré-concebido, equivalente então a preconceito… Uma reflexão plural só pode ser por isso enriquecedora, a aprendizagem em qualquer área, amplificando o horizonte faz do ser humano uma pessoa mais tolerante.

 

Continuando o paralelismo com a doença, quem é o doente, pergunta Jacqueline Lagrée… Um caso? Uma patologia? Um paciente passivo?

E o médico? Um veterinário? Um mecânico de automóveis?

A resposta parece óbvia, o doente é uma pessoa, não um simples animal ou objeto que necessite de revisão de peças e mecanismos.

Atrevo-me a acrescentar a esta fabulosa reflexão mais um ponto. Também nós médicos somos um somatório que inclui a nossa história pessoal, relacional, e de experiências de acordo com a nossa interação com o meio.

 

Assim sendo, não faz qualquer sentido que o médico observe apenas o lado da pirâmide que aborda a semiologia e a fisiopatologia da doença, porque o doente é uma pessoa, como ele próprio.

Obviamente que o profissionalismo exige a isenção, a imparcialidade, a ausência de juízos, a preferência por um ou outro doente por motivos relacionados com a empatia e inexplicáveis, acima de tudo pede que deixemos de parte a vida pessoal e familiar quando vestimos a bata branca, agindo conforme o papel que ela nos confere, como médicos.

 

E quem consegue deixar a vida fora do hospital ou do consultório? Quantos médicos têm a capacidade de dissociar os pensamentos milimetricamente, com uma linha divisória nítida e linear, filtrando totalmente as preocupações, a doença de um filho, um dissabor conjugal, a doença de um amigo? Quem é o clínico exemplar que não se deixa influenciar, abordando com pessimismo um dia mais cinzento, ou irradiando bom humor num dia em que a sua vida é raiada de sol? Que atire então a primeira pedra…

 

Não sejamos mais papistas que o Papa. O médico não pode nunca ser apenas médico, («O médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe», citando Abel Salazar) deve ter o seu quê de filósofo, e também irá um dia ser doente… Não vale a pena tapar o sol com a peneira. Assim, deixemo-nos ser um pouco pensadores… e ver pelos olhos dos doentes… Ver a pirâmide completa.

Aliás, se «errare humanum est», e se todos somos humanos, todos vacilamos; por mais competentes e profissionais que tentemos ser, a exaustão vai queimando o ar lentamente, uma combustão silenciosa e invisível, e quando nos damos conta, o ar é irrespirável, o cansaço apodera-se das moléculas, o pensamento está baço.

 

Não há imunidade inata para a tristeza, não existe tratado médico que nos ensine a ser máquinas, e ainda bem, quanto a este último ponto…Em relação ao primeiro… Existem imunoglobulinas em bólus intermitentes, as férias, os momentos de escape pessoais, as pequenas coisas que são alegrias, ou anticorpos que se vão gerando à custa do embate com os agentes nocivos com que a vida por vezes nos infeta… Ganhar defesas em reserva, para esses dias menos bons.

 

Quando escrevi o meu primeiro livro, «Microcosmos Humano», ficcionei vivências, inspirei-me em muitos factos reais do meu percurso como médica e ser humano. Polvilhei as frases que iam surgindo com imaginação q.b….

 Mas é verdade que há momentos em que podemos bater no fundo. O tal burn-out. E é ridículo ser considerado tabu ou estigmatizante…

Mais importante que a queda em si, mais ou menos aparatosa, é a lição que se crava na alma de como voltar a erguer a cabeça. E isso exige à posteriori um estado de alerta permanente, um esforço contínuo. Como um toxicodependente em reabilitação, o risco da recaída é permanente…

 

E por isso escrevo estas linhas hoje, e convido quem quiser a assistir à apresentação do meu livro.

«Cada homem transporta em si a forma completa da humana condição» - Montaugne Essais

 

E me perdoem os que discordam, que consideram as reflexões uma lamechice, que se acham imortais e intocáveis. Vivem como a avestruz…

Vânia Mesquita Machado

08 de setembro de 2014

 

 

 

Entre escadas rolantes que circulam em sentido descendente, economia nacional algemada à população portuguesa, sobre a qual paira uma nuvem depressiva que projeta contornos sombreados do fantasma da crise 24 horas por dia, urge procurar um caminho alternativo impulsionador dos lusitanos em pulo de trampolim, renovando a força de vontade pela inovação mental, visão em panorâmica de 180o. 

Todas as ideias que elevem o estado anímico poderão ser válidas, num brainstorming coletivo cujo resultado pode ser imparável, porque a união sempre fez a força, repercutindo-se nas gerações futuras.

Porque não ser hippie?

Etimologicamente, a palavra deriva do adjetivo hip," in the know", " awareness" " to open ones' eyes". A origem do termo só por si é uma lufada de ar fresco.

Como movimento cultural dos anos 60, em sentido estrito cultivava a paz e amor, em atitude de visão crítica do mundo com rejeição de valores institucionalizados como materialismo e a sociedade consumista.

A irreverência hippie refletia-se na forma de vestir, na vida comunitária, na liberdade sexual e consumo de drogas como meio de atingir estados alterados de consciência.

Em análise aprofundada dessa mentalidade defensora do pacifismo, de outras expressões de amor e da utopia de melhorar o mundo com arreigada noção de fraternidade, um hippie é um humanista.

Neste mundo narcisista o que interessa é ter - um gadget, a roupa de marca fashionista, o carro com mais cilindrada- ou aparecer - a festa onde se vai para se ser visto, a selfie recordista de likes.

As técnicas de marketing, de lupa atenta ao potencial consumidor, renovam embalagens do mesmo produto; o que importa é a novidade, o último grito, estar in. E estimulam o comportamento autodestrutivo do ser humano.

Com tanta gritaria, o cérebro agita-se e dispersa-se, incapaz de absorver os inputs incessantes dos estimulos ubiquitarios.

Em tudo, o fundamental é o estado de equilibrio, base que evita a entropia.

 A cultura hippie assume ainda o regresso à ligação com a natureza.

A antropologia, ciência observadora da organização dos povos primitivos, tem alertado para os riscos que corre o mundo ocidental. Claude Levi-Strauss foi um visionário do apocalipse ( sem a conotação religiosa de aviso profético ou messiânico) que se aproxima, consequência do estilo de vida em parafernália tecnológica. 

Nem 8 nem 80. A apologia do regresso às cavernas, viver à luz das velas, total desconexão com os novos mundos virtuais, é uma atitude radical de teimosia; o uso doseado da convivência na aldeia global, pode dar bons frutos. Os intervalos de reset, permitirão o reencontro interior.

Esse é o objetivo das férias, mas pode ser também adotado como prática regular, levando à assimilação da relatividade da importância da coisas - pela religião, pela meditação ou introspecção, ou apenas assumindo uma diferente perspetiva da vida.

A expansão mental permite a fusão cultural com outras formas de viver, sem preconceitos, de lado os juízos moldados à nossa bagagem de valores imprimidos pela nossa escola da família, do bairro, da classe social, do corporativismo profissional, orelhas moucas ao desdém do ego "que sabe tudo e é o maior". Revelação do verdadeiro tesouro de estar vivo.

O governo de um país, assumindo uma postura sem influência de lobbies ou despotismo, ouvindo todos os elementos da Assembleia, representantes eleitos democraticamente pelos cidadãos, com total isenção, teria uma atitude hippie se cada proposta de lei justa e interessando ao bem comum, independentemente do lado da bancada, fosse aprovada sem duelos de cor política.

Identifico-me cada vez mais com essa cultura hippie, seja neo, pseudo ou hippie de nova geração ( a denominação sem importância) , o conceito de estar alerta, amplitude de visão sem tabus, tolerante e solidária, com baixo volume do ruído do progresso, e aumentando o som da natureza, fertilizando o interior, é no mínimo apelativo. 

Por isso vou de férias, família numerosa na bagagem, conforto básico. Este ano, o destino não é o hotel de cinco estrelas, é o parque de campismo de infinitas estrelas no céu escuro que abraça o pinhal. Lição aos meninos sobre outra forma de ver o mundo.

Vânia Mesquita Machado

18 agosto 2014

 

 

 

 

 

 

15
Ago14

AMOR HUMANO DE CALEIDOSCÓPIO

por mafaldinhacontestataria

 

 

 

 

O amor, o amor não se define, o amor às vezes não se sente e existe, quietude de quem espera pelo momento.

E às vezes o momento não se define nem existe, o tempo resvala e foge, corremos atrás dele e ele acelera o passo, desliza pela neve em declive, pela planície de mar que se crispa em onda encurvada, disperso na insignificância das coisas. 

 

E as pessoas vão vivendo porque a vida, como o tempo, também não espera. 

A vida corre com o tempo. E se o tempo pode desacelerar, os instantes desmultiplicados em pequenas coisas boas, se quisermos, a vida não pára, até à passagem. 

 

E se a vida pode ferir, pode marcar com ferro em brasa, pode apresentar em bandeja com pano de linho os acepipes, e entre eles os saborosos estão os com veneno, por fora todos iguais, e se as pessoas quando vivem vão mudando, sem querer e tantas vezes sem saber, o tempo pode ser compressa embebida em alfazema e ervas medicinais, que curam os cortes profundos e saram as queimaduras, sem cicatrizes e em queloides.

 

O tempo pode ser um dos nossos melhores amigos.

E a vida pode ser um experiência sensorial de êxtase, por breves flashes, que ritmam sem ritmo, na irregularidade do que é imprevisível, os outros dias de tempo e de vida, os dias normais.

 

No amor é assim.

O amor é uma multiplicidade de nuances num vitral filtrado pelo sol. Ou é uma sombra de um vitral turvo e baço de dias de chuva miudinha.

O amor entre dois seres nunca é igual, e o amor de amor conjugal também não.

Os seres podem sentir o amor nas relações conjugais, filiais, familiares, de amizade e entre seres humanos desconhecidos. Mas também o podem sentir inexplicavelmente na natureza, céu, mar, terra, animais, plantas.

 

Quando esse sentimento de amor universal desabrocha, é uma flor de lótus misteriosa, que pode imprimir medo no ser humano, como reação instintiva de algo cuja imensidão é infinita. O infinito gera taquicardia de reação simpática adrenérgica, fóssil do instinto de fuga ancestral.

Se enfrentarmos esse medo irracional e abrirmos os braços e os olhos,atitude de quem dá sem esperar receber, a energia positiva flui.

E o amor sente o momento e manifesta-se.

 

Nas pequenas coisas da vida, de mãos dadas com o tempo. E o relógio deixa de importar, e a idade também.

E todos os seres podem partilhar o amor.

Nss diferentes nuances, o coração em total abertura para dar. A partir de certa altura de tempo sem tempo e de vida que se vai vivendo, esse ato é reflexo e não pensado, e a vida faz sentido, o verdadeiro sentido, e o tempo já não foge.

 

A vida dá as mãos ao tempo, e o ser humano encontra uma paz interior de quem ama genuinamente, o ser ao lado que é companheiro, os seres do sangue, os seres irmãos de pensamento e filosofia, os seres manos de espírito, os seres desconhecidos que também são humanos, os seres vivos do mundo. 

Em diferentes formas de amor, neste mundo de matéria, mas que por esse cosmos fora, quando o tempo deixar de existir e a vida assumir outra forma, será igual, em corrente de fusão de energia positiva....

E o amor não se define, e o tempo não existe, e a vida imaterial é infinita.

 

Vânia Mesquita Machado

15  Agosto 2014

 

 

 

 

Amigdalite aguda.

Doença banal. Dores musculares,  febre, dor de garganta e pouca vontade de comer, tonturas ao levantar, falta de forças.

Estas -ites nas crianças até parecem insignificantes, febre de 39 oC, meia hora após o antipirético , já pulam e correm pela casa, "já parecem o seu menino", como dizem as mães....

Em nós, adultos, umas décimas acima de 37 oC  e uma amigdalite já dão pano para mangas para nos deixarem knock-out...

Não sou particularmente dada a -ites, anos de prática como Pediatra deram um repertório vasto ao meu sistema imunitário.

Este fim-de semana de outono em pleno agosto, a amigdalite visitou-me. E eu, que não consigo estar quieta mais de um minuto, senti-me invadir por um torpor sonolento, tarefas básicas de quem tem 3 meninos executadas e sucumbi a uma mísera -ite, dormitando o dia todo. Felizmente não era dia útil, pelo que dispensada a justificação de absentismo laboral por doença, deixei-me descansar em estado de mente atordoada pela mistura de analgésicos, e quando entendi que não era virose, o antibiótico e o antiasmático, a amiga asma adora quando as minhas defesas baixam.

E em tantas horas de repouso forçado, sem necessidade de me deslocar a serviços de saúde, aconselhada por colegas mais habituados a amigdalites em adultos, fiquei de molho no remanso silencioso do lar ( as crianças a falar baixinho, a mamã doente inspira respeito, e a mamã triste por vê-los assustados, a mamã não costuma parar), tive tempo para pensar.

E pensei nas pessoas que não são médicas, nem têm amigos médicos, e que com o corpo dormente aturdido pela doença aguda se deslocam para uma urgência sobrelotada.

Uma amigdalite é equivalente a pulseira verde e sermão por ir à urgência do hospital, mas ao fim de semana há extensões do CS que encerram. Imaginei-me sentada na cadeira entre os verdadeiros doentes em agonia das suas dores mais graves. Mas também eu sentia uma dor de facas afiadas na garganta,  e uma fraqueza tal que mal me conseguia mexer... 

E senti, mesmo em casa, a vulnerabilidade de quem está doente, mesmo com uma ridiculamente insignificante amigdalite. Talvez o meu problema seja pensar demais.

Mas incapaz de não o fazer, ainda fui mais longe, e coloquei-me no lugar de quem faz km para chegar cedo ao CS, o cancro a corroer vísceras disfarçadamente, sintomas que vão surgindo, e as pessoas não têm outro remédio que não obedecer às ordens internas do corpo, mensagens de sintomas telegráficas.

A doença, seja ela qual for, fragiliza, porque à semiologia clínica, as dores e os achaques dos orgãos, se soma um sentimento de inferioridade por não estarmos no estado normal, saudável, vigoroso.

E se a isso se acrescenta o medo pela ignorância do que o que se sente poder significar algo grave, e o receio de não se ser bem atendido, ou porque não é o nosso médico habitual, ou porque o médico, como ser humano nesse dia não está bem disposto, ou porque nesse dia já prescreveu tantas receitas que a exaustão lhe devorou a paciência, então o sentimento deve ser angustiante...

Os seres humanos não são números, nem minutos, nem utentes. São humanos doentes.

Seja uma amigdalite ou uma pancreatite, salvaguardando as devidas diferenças na necessidade de agilizar tratamentos.

Mas todos merecem compreensão e um momento de atenção. Às vezes, apenas quando estamos na pele do outro entendemos estas coisas.

Mesmo que numa simples -ite...

 

 

 

 

 

 

 

Texto de Vânia Mesquita Machado • 08/08/2014 - 10:57, publicado no P3 do Público

 

E em plena "sleepy/silly season", o português de corpo dorido e sticado uns dias na areia, lagarto ao sol e cérebro mole, vislumbra no horizonte um cargueiro chamado BES afundar com a rapidez de uma cruz na batalha naval

 

Interessante sequência de primeiras páginas no escaparate da banca de jornais diários, esta quinta-feira, 7 de Agosto.

 

Lado a lado, letras gordas, os criminosos, cúmplices nessa proximidade intimista das notícias de capa.

 

Parceiros de prateleira: "Depósitos da Família Espírito Santo ficam no Bes mau", "Salgado esconde fortuna na Ásia", "Redes criminosas de apostas ilegais no futebol português", "Médicos duplicam salário".

 

Frases que infiltram o subconsciente da opinião pública, ondas de peças de dominó com queda da reputação em cadeia, bando de gatunos oportunistas, povo agastado confundido, angústia dos dias em crescendo, afinal até os médicos duplicam os salários, só o zé-povinho fica a ver navios rumo a "off shores".

 

Que importa depois o artigo em profundidade? No caso concreto, refere-se a uma auditoria do Tribunal de Contas sobre diferentes modelos de Unidades de Saúde Familiar, tema de grande complexidade, que envolve colegas de Medicina Geral e Familiar (MGF), e sob o qual como pediatra não me vou alongar porque não me compete formular opinião sobre essas matérias, por não estar suficientemente informada.

 

E se nem eu me considero apta para abordar o tema, embora depois de ler a primeira página e o artigo na totalidade entenda que o assunto de base é financeiro, e os tais valores remuneratórios elevados são casos pontuais (e suados para serem recebidos), pois conheço vários colegas de MGF, o que dizer do cidadão comum, temporariamente cego por nuvem de gás pimenta, amblíope para o real escândalo destes dias, a corrupção bancária? E com a maior isenção, não é verdade que entre grandes rebanhos de ovelhas brancas existem sempre algumas negras?

 

Reconheço a minha absoluta ignorância em economia, não sou comentadora política de palavreado hábil, "connaisseur" de bastidores obscuros e passagens secretas para encontros entre quem decide o futuro de um país.

 

Sou apenas uma espécie de copo meio cheio de "Absolute Vodka": ténue estado de embriaguez pelas imagens de um país desmantelado, a que assisto não só nas notícias mas também no meu dia-a-dia profissional.

 

Na minha visão simplista, o estouro do BES levou por arrastão parte da oferenda no altar dos sacrifícios do povo lusitano, o cérebro centrifugado e lavado com lixívia pura, e após sessão de transe colectiva convencido da culpa de ter vivido acima das suas possibilidades. Esse povo penitenciou-se durante dois anos, auto flagelou-se, as respectivas famílias fustigadas pela crise, ventania de euros que voaram das contas dos cidadãos.

 

A Troika, terminado o serviço de faxina e verificado o brilho da tijoleira, tirada fotografia de praxe com os nossos governantes, zarpou de férias para paraísos tropicais, os respectivos países europeus nossos parceiros com o seu quinhão de lucro pela saída limpa.

 

E em plena "sleepy/silly season", o português de corpo dorido esticado uns dias na areia, lagarto ao sol e cérebro mole, vislumbra no horizonte um cargueiro chamado BES afundar com a rapidez de uma cruz na batalha naval.

 

E vê ao longe, sentado na toalha de praia coçada, os respectivos almirantes das frotas dos partidos a contarem munições e delinearem estratégias, a oposição radiante pela oportunidade à vista de subir ao pódio, e os que mandam a sublinhar que não foram utilizados capitais públicos nem privados para a cirurgia plástica do BES, agora denominado Banco Novo, talvez mais ecológico se intitulado de Banco Reciclado...Serão capitais oriundos de outros planetas, de alienígenas?

 

Mas o algodão não engana, e a saída limpa afinal estava inquinada.

 

Por isso é conveniente agora distrair de novo os portugueses, apontando o dedo a outras classes, como a classe médica.

 

E o efeito pode ser de tal forma perverso, que não só atira fuligem sobre os médicos que trabalham no SNS (sobre os quais versa a notícia), como atrai "clientela" (palavra feia, para mim não são nem clientes nem utentes mas pessoas ou doentes, e é assim que falamos entre nós, no nosso grupo dos Médicos Unidos da rede social, que inclui 25% dos médicos), para a medicina privada gerida pelos grandes grupos bancários… Pescadinha de rabo na boca.

 

 

 

http://p3.publico.pt/actualidade/economia/13240/pescadinha-de-rabo-na-boca-banqueiros-e-medicos-os-viloes-do-dia

 

 

06
Ago14

A MENINA ARCO- ÍRIS DO HOSPITAL

por mafaldinhacontestataria

 

 

 

 

 

 

Hoje um acidente no trânsito, durante os percursos de rotina antes de entrar no hospital e imprimir o dedo na máquina (aquele instante de associação imediata à marcação de gado ou de cavalos com ferro quente; felizmente hoje em dia os métodos modernos são menos cruentos, nitrogénio, microchips. Sinistro pensamento)

 

Hoje um acidente instantâneo de automóvel, como sempre são. Hoje um instantâneo fotográfico no segundo após, os três meninos choravam mas estavam bem.

 

Hoje um instantâneo fotográfico já no hospital, os meus meninos já aos cuidados dos avós, chamado o reboque e resolvida  a questíuncula comezinha de um automóvel que não andou mais, outro incidente instantâneo acidental que teria ocorrido por estes dias do qual não tinha conhecimento, intoxicação por monóxido de carbono, dois irmãos, o instantâneo da fatalidade a levar para o cosmos o mais novo.

 

Hoje mais um instantâneo fotográfico de como a felicidade é efémera e a vida se esboroa num instante.

 

Hoje um passeio com a menina arco-íris, hospitalismo em estado puro.

Saímos as duas, breve partilha de instantes, sorrimos; e ela gostou de ver as árvores e as flores, do seu quarto na enfermaria não vê o céu.

 

Cantei-lhe músicas infantis, ela dançou no meu colo, a menina arco-íris com doença grave que a impede de ser normal e comunicar com o mundo como os outros meninos. Mas o que é a normalidade, quando nos olhos dela vi o brilho de um ser humano especial que me encheu de felicidade e paz. E recebi mais do que dei.

 

Hoje um dia atípico, um dos muitos instantes que fazem a vida valer a pena.

E pelo caminho de cada um de nós, muitos seres arco-íris guardam segredos de pequenas coisas.

 

Como médicos, para além do horizonte do sofrimento alheio e da desesperança, que também nos toca, cada um de nós reagindo conforme a sua personalidade, e com o cuidado de não nos envolvermos em excesso para impedir a imparcialidade e competência do gesto médico, temos o prvilégio de estarmos rodeados de seres arco-íris.

 

Quando em vez de contarmos os minutos, perdemos a noção do tempo e amparamos quem pressentimos, no olhar, que necessita. E  o que recebemos em troca... Não se inclui em qualquer tabela remuneratória. 

 

 

Vânia Mesquita Machado

06
Ago14

REINAUGURAÇÃO SEM VERNISSAGE

por mafaldinhacontestataria

 

 

 

 

Quando as 24 horas do dia se tornam curtas, os dias se sucedem numa alternância ininterrupta de sons e imagens, e as tarefas habituais colidem com a realização de sonhos, acontecem destas coisas.

 

As borboletas esvoaçam sem destino, ou talvez com destino mas sem saberem bem qual, agindo instintivamente, guiadas pelo impulso da energia positiva...

 

E quando assim é, certas burocracias numéricas deixam de ter espaço nas vivências.

 

Resumindo, e perdendo a password que tentei recuperar inúmeras vezes mas dada a minha inapetência informática ( sonhos, a quanto me obrigam...), resolvi ser mais fácil abrir outro blogue. Os ideais são os mesmos...

Humanismo... utopia... e catarse q.b.

O nome vai dar ao mesmo, Utopika ou Mafaldinha contestatária, múltiplas personalidades com os mesmos valores...

 

Vânia Mesquita Machado

 

 

 


Mais sobre mim

foto do autor


Arquivo

  1. 2014
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ


subscrever feeds